Dos Mercedes-Benz aos carros militares: a história do papamóvel

13 September 2018 - auto.monitor

Dos Mercedes-Benz aos carros militares: a história do papamóvel

Quando o Papa Pedro, o primeiro pontífice da Igreja Católica e um dos treze apóstolos de Jesus Cristo, foi escolhido como o representante máximo da religião, corria o ano 30 e, por isso, o conceito de automóvel estava longe. Até 1800, o meio de transporte eleito era o cavalo.

Mas é o Papa Pio VII que revoluciona o conceito de viagem e introduz as quatro rodas na vida papal.

Das carroças aos Mercedes-Benz, passando ainda pela Fiat e Range Rover, os Papamóveis não são apenas veículos: contam histórias e contextos políticos e sociais utilizados pelos responsáveis de uma das religiões mais praticadas no mundo. O requisito é o mesmo ao longo dos tempos: alta visibilidade para os que o esperam o mas também proteção, especialmente após a tentativa de assassinato do Papa João Paulo II.

Papa Pio XI

O primeiro papamóvel chegou em 1929 e marcou uma ligação com a Mercedes-Benz que viria a estar presente até hoje na história dos veículos papais. O primeiro automóvel a servir o Vaticano foi um Mercedes-Benz 1930 Nurburg, oferecido após desavenças com o governo italiano, estava então no poder o Papa Pio XI.

Este Papa terá a oportunidade de se deslocar em vários veículos, de vários fabricantes. Em 1929, a coleção de carros do Vaticano contava com um Fiat 525, um Isotta Fraschini Type 8 e um Citroën Lictoria Sex. Mas esse ano ficou marcado pela primeira visita a bordo de um automóvel fora da cidade do Vaticano, a primeira em 59 anos. O protagonista foi um Graham-Paige Motors Type 837, uma prenda do fabricante americano no aniversário dos 50 anos como padre de Pio XI.

A estrela do firmamento no papado de Pio XI foi o Mercedes-Benz Nürburg 460, oferecido em 1980, que estava equipado com uma tecnologia que permitia ao pontífice entrar em contato com o condutor através de botões que indicavam se este deveria virar à direita ou esquerda e andar mais depressa ou devagar.

João XXIII

Em 1960, a Mercedes-Benz continua a acompanhar o pontífice, nesta altura João XXIII. O Mercedes-Benz 300d também estava equipado com controlos na parte traseira do automóvel, que permitiam agora controlar o ar condicionado e comunicar através de um rádio com o condutor. Este automóvel tinha uma especificidade: tinha um tecto em tecido que poderia tapar apenas os bancos traseiros ou ser totalmente retirado, tornando-se assim no primeiro descapotável papal. Sendo estes trajetos repletos de ovações e benções por parte do Papa, a Mercedes-Benz incorporou apoios nas portas para que fosse possível circular em pé.

Paulo VI

As viagens fora de Itália começaram com o Papa Paulo VI que na sua visita a Nova Iorque, nos Estados Unidos, em 1965, saudou quem o esperava num Lincoln Continental, uma limousine de cerca de seis metros. Este automóvel foi posteriormente vendido num leilão por cerca 196 mil euros.

Em 1965, a escolha volta a recair num Mercedes-Benz descapotável, desta feita um 600 Pullman. Agora com teto subido, este carro contava na parte traseira com um lugar reservado para o Papa e dois lugares adicionais para os acompanhantes do pontífice.

João Paulo II

O papado de João Paulo II ficou marcado pela tentativa de assassinato na Praça de São Paulo, no Vaticano, corria o dia 31 de maio de 1981. A bordo de um Fiat Campagnola, um automóvel conterrâneo e todo-o-terreno, aquele que é até hoje um dos Papas mais acarinhado pelos crentes da Igreja Católica foi alvejado no abdómen, na mão esquerda e no braço direito. A partir deste momento, a segurança passou a ser um dos requisitos fundamentais do papamóvel.

João Paulo II foi talvez o mais irreverente dos papas no que concerne a escolha de veículos. Antes da tentativa de assassinato, em 1979, este pontífice viajou até à sua terra natal, naquela que foi a primeira visita papal à Polónia e saudou os seus conterrâneos a bordo de um veículo militar, um FSC Star, um camião de grandes dimensões sem teto, como um sinal dissimulado de desafio aos russos que na altura se encontravam no poder.

O menos papal de todos os papamóveis é talvez o Ford D-Séries, um género de camião de 15 lugares utilizado na visita de João Paulo II à Irlanda, em 1979. Em 2012, este veículo foi transformado num transporte de festa para despedidas de solteiro.

O Mercedes-Benz 230-G é o modelo que mais ditou o design do papamóvel até agora. Um SUV com uma cúpula em vidro, que protegia o pontífice mas permitia que fosse visto e visse a multidão que o esperava, com um sistema de circulação de ar para que o vidro não embaciasse.

O mais irreverente papamóvel foi utilizado em 1982 numa visita ao Reino Unido. Com 24 toneladas, o Leyland Constructor foi escolhido pelas suas capacidades off-road e pela sua capacidade de aceleração em caso de emergência. Com vidro à prova de bala, este verdadeiro carro de guerra estava equipado com um motor de seis cilindros de 145 cv. Atualmente, pode sentar-se na cadeira onde se sentou o Papa se visitar o Museu de Veículos Comerciais em Leyland, em Inglaterra.

Mas não é só de veículos de luxo e guerra que a coleção de automóveis do Vaticano se faz. Em 1982, o Papa João Paulo II visitou Espanha e por isso deslocou-se num modelo do fabricante espanhol Seat, um Panda, provavelmente o mais pequeno dos papamóveis, para que pudesse entrar nos estádios de futebol onde deu a missa papal.

Alguns automóveis utilizados não se destacam pela sua constituição mas sim pelo seu significado e contexto histórico. Em 1987, o Papa visitou o Chile a bordo de um Mercedes-Benz 608, numa visita em que falou abertamente contra o regime ditatorial do presidente Augusto Pinochet.

O mais desportivo de todos os papamóveis é sem dúvida o Ferrari Mondial utilizado em 1988 quando João Paulo II visitou a terra natal da marca italiana, Maranello. Mas a história entre o Vaticano e a Ferrari não se fica por aqui. Em 2005, o fabricante de desportivos ofereceu um Ferrari Enzo ao Vaticano, que viria mais tarde a ser leiloado e os lucros arrecadados a reverter a favor das vítimas do tsunami na Indonésia.

Em 1999, João Paulo II passeou pela cidade do México num autocarro constituído em grande parte por vidros de grande dimensão, que se tornou mais tarde num local em memória deste Papa.

Francisco

Conhecido como o mais humilde dos pontífices, o Papa Francisco já utilizou vários modelos entre eles um Hyundai Santa Fé, depois de numa partida do Dia das Mentiras a marca sul-coreana ter anunciado que criaria uma versão especial do citadino i10 para os líderes religiosos. Parece que a profecia se cumpriu.

Numa visita à Coreia do Sul, o Papa Francisco surpreendeu a multidão ao deslocar-se em modelos da coreana Kia, num Sedona e num Soul modificados às exigências de segurança necessárias.

Dos SUV aos clássicos, este papa é o mais irreverente. É a bordo de um Renault 4 que Francisco demonstrou o quão simples um papa pode ser. "Um carro é necessário para fazer vários trabalhos, mas por favor, escolham um mais humilde", disse o papa atual aos padres mais novos, em 2013. O Papa Francisco desloca-se na cidade do Vaticano num Renault de 1984 com cerca de 300 mil quilómetros.

A última visita do Papa Francisco foi marcada pelos discursos interventivos do pontífice mas também pelos automóveis que utilizou para se deslocar. O Jeep Wrangler foi o automóvel principal, embora modificado com um escudo protetor aberto lateralmente para que fosse possível cumprimentar os crentes. Quando questionado por uma publicação catalã acerca da diminuição de segurança nos papamóveis abertos, Francisco revelou sentir-se "numa lata de sardinhas" quando fechado, acrescentando ainda que com a sua idade "não tenho muito a perder".