
O Mercedes-Benz W123, membro da linhagem do Classe E atual, é um dos modelos mais importantes da história da marca alemã. Quase 2,7 milhões de unidades foram produzidas e ainda hoje é a geração de um Mercedes-Benz mais vendida de sempre.
Por isso, não é difícil encontrar exemplares em circulação. Nem sequer em África onde, independentemente do estado de conservação, muitos continuam a cumprir funções de táxi. Mas encontrar um W123 como este 280 TE é outra história.
Num leilão da Gooding Christie’s realizado durante o Pebble Beach Auctions, no âmbito do Monterey Car Week, este Mercedes-Benz 280 TE de 1979 foi vendido por 252 000 dólares, cerca de 221 000 euros. Tornou-se no Mercedes W123 mais caro de sempre vendido em leilão, ultrapassando largamente a estimativa inicial de 130 000 a 160 000 dólares.
A explicação para este valor começa nos apenas 6088 km que este 280 TE tinha quando foi catalogado. Mas é a história por detrás dessa quilometragem que torna este Mercedes-Benz verdadeiramente invulgar.
Segundo o historial reunido pela Mercedes Motoring, o primeiro proprietário, Lorenzo Nesta Dimarco, recebeu o carro diretamente da fábrica em junho de 1979. Conduziu-o até Avellino, em Itália, deixou-o na garagem ainda com as matrículas temporárias de exportação e regressou a Caracas, na Venezuela, onde também desenvolvia a sua atividade profissional.
Pouco mais de um ano depois, a 23 de novembro de 1980, a região foi atingida pelo terramoto de Irpinia, de magnitude 6,9. Uma catástrofe que matou 2734 pessoas, provocou danos graves em 688 municípios e desencadeou numerosos deslizamentos de terras.
Um desses deslizamentos envolveu a garagem onde estava o 280 TE. A estrutura resistiu, mas o acesso ficou bloqueado e o Mercedes permaneceu lá dentro. Não se sabe quando a garagem voltou a ficar acessível, mas sabe-se que o carro não voltou à estrada durante décadas.
A história torna-se ainda mais peculiar em 1994. Lorenzo vendeu o Mercedes-Benz a Rosiana Idolo, mas o novo proprietário também nunca o retirou da garagem nem chegou a matriculá-lo.
Só em 2018, depois da morte de Idolo, a filha retirou finalmente o 280 TE da garagem e colocou-o à venda. Tinham passado 38 anos desde o terramoto.
O resultado é algo próximo de uma cápsula do tempo. A pintura Nickel Green, uma cor rara que deixou de estar disponível depois de 1979, mantém-se original, tal como o interior em MB-Tex verde e tecido azul-esverdeado.
Há ainda madeira Zebrano, climatização, caixa automática e uma terceira fila de bancos rebatível virada para trás. Depois de regressar à luz do dia, o Mercedes-Benz recebeu os trabalhos necessários para voltar a funcionar, preservando tanto quanto possível o estado original. A pintura conserva apenas pequenos riscos e marcas.
Apresentado em 1976, o W123 sucedeu ao W114/W115 e rapidamente se tornou um dos maiores sucessos da história da Mercedes-Benz. A produção aproximou-se dos 2,7 milhões de unidades, tornando-o o Mercedes mais vendido de sempre quando consideramos apenas uma geração.
A fórmula era relativamente simples: conforto, qualidade de construção, segurança e uma robustez que ajudou a criar a fama quase indestrutível do modelo. Foi carro de família, executivo e, sobretudo nas versões Diesel, uma escolha recorrente entre taxistas.
A gama incluía berlinas, coupé e, a partir de 1978, a primeira carrinha produzida pela própria Mercedes-Benz e integrada na gama. Esta podia transportar até sete ocupantes graças ao banco suplementar invertido na bagageira.
Quase 50 anos depois, encontrar um W123 com poucos quilómetros já é difícil. Encontrar um que tenha passado décadas fechado numa garagem depois de um terramoto, ainda com menos de 6100 km e num estado próximo do original, é outra história. E agora também tem um recorde para provar isso.

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